quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um fato e uma reflexão: Pai ausente, iPad presente

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Notícia: Britânico relata 'vício' do filho de 3 anos em iPad e como tratou problema
Fonte: UOL
Data: 30/01/2014
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Tendo filhos ou não, todos nós sabemos o quanto a tarefa de criar um é bem difícil. 

E mais do que prover com coisas básicas como alimentação, saúde e educação, por exemplo, existe algo muito importante e que não está à venda em nenhuma loja: dedicação.

Se dedicar ao filho parece fácil, mas nem sempre é. Imagina só chegar do trabalho cansado e ainda ter que ir pro chão brincar ou ajudar no dever de casa. Ou então passar o dia limpando a casa, arrumando tudo, pra perceber que horas depois tudo já está desarrumado e tem um molequinho te segurando pelas pernas. Um não, podem ser dois, três...

Em grandes cidades é ainda pior, pode acreditar. Horas de trabalho e horas no trânsito podem fazer com que alguns pais sequer encontrem os filhos acordados.

Daí, como é que faz pra compensar a falta de tempo e se dedicar? É, não parece fácil e falta tempo...

E o que a falta de tempo gera? Culpa...

E o que a culpa gera? Permissividade!


A ausência e a diminuição da dedicação acabam fazendo com que os pais relevem e permitam certas coisas para que os filhos não fiquem tão tristinhos.

"Ah, tudo bem, ele pode tomar sorvete hoje."

"Ah, tudo bem, ele pode ficar acordado um pouco mais."

"Ah, não é aniversário, mas ele vai ganhar o brinquedo novo mesmo assim."

"Poxa, fica tão sozinho... Qual o problema em deixar ele brincar com o iPad? É só um pouquinho."


Pronto. As portas ficam tanto tempo abertas que as dobradiças enferrujam e já não fecham mais.



A situação perde o controle, a criança fica sem limites e, claro, muito chata!

Aí a culpa passa a ser do moleque mal educado, da menina birrenta... Não, não é!

- Claro que não é! A culpa é da escola que não dá educação e a criança volta cheia de problemas pra casa!

Não, não é também!

- Opa, tá querendo dizer que a culpa é dos pais?

ISSO! A culpa é dos pais, sim. E o que é pior nisso tudo é que uma culpa gerou a outra.

A falta de tempo, disposição ou até mesmo de paciência foi gerar um comportamento errado no filho. E então tome terapia, tome castigo e tome "detox", como disse a notícia.

Por mais complicado que seja, quem coloca os limites são os pais. O menino não pegou o iPad sozinho e começou a mexer por horas e horas. Com certeza não. Ainda que as crianças sejam super espertas, o gatilho quem puxou não foi ele. 

E como essa discussão de culpa é longa e leva tempo, não é? Pois então, eu sei que o tempo se tornou um artigo de luxo, principalmente em grandes cidades, mas reflita comigo.. Já que é pra gastar tempo, não é melhor que seja sentado com o garoto no chão e aquele monte de carrinhos, ou junto com as panelinhas da menina, do que levando essa criança pro terapeuta ou tendo que que gritar com ela pra não dar o iPad?

Pois é... A gente nunca acha que vai acontecer na nossa casa, que são casos isolados... Não é mesmo!

A ausência dos pais gera muitos problemas, mas focando nesse caso específico do iPad, além do vício a criança pode ter dificuldade de socializar, problemas de visão e de postura, só pra citar alguns. Olha quanta coisa bacana (só que não) pra se preocupar, hein?


Fica então a dica para refletir. Conte até 10 na hora do cansaço, dê um pouco de atenção, estabeleça limites e crie uma boa relação com o seu filho. Os cinco minutinhos por dia vão ser mais valiosos do que as horas de castigo e os gastos com terapia.

E não se esqueça que uma criança precisa mais dos pais como referência do que ir ao Google fazer pesquisas pra saber o que fazer.  ;)



domingo, 26 de janeiro de 2014

Acorda, fofinha!

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Notícia: Remédio para convulsões é usado para emagrecer e causa efeitos colaterais
Fonte: Folha de São Paulo
Data: 15/01/14
Nível: 4
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Apelar para o topiramato era a oitava tentativa de chegar no corpo perfeito. Qualquer dieta que aparecia fazia com que Melissa perdesse mais dias do que gramas. Era uma tortura que terminava na pizzaria, na sorveteria ou naquele rodízio sensacional que tinha perto do trabalho.

- Dessa vez vai ser diferente! O manequim 38 vai ficar largo!

Os primeiros dias já pareciam anunciar um milagre. Melissa se olhava no espelho e se via mais fina. E as amigas eram só elogio!

- Tá fininha, Mel! Arrasou!

Como nem tudo são flores, aquele santo remédio precisava vir com tantos efeitos colaterais? Pois é... E o pior deles era aquele sono da morte que batia o tempo todo.

Era regra: todas as quartas-feiras as meninas se reuniam à noite para assistir um filme na casa de Patrícia, a melhor amiga da Mel. Acontece que nessa semana ela não aproveitou nada e dormiu durante o filme todinho. As palavras era bem legal e tinha aquele gato do Bradley Cooper, mas o remédio era mais forte que o braço do ator.

Passava das onze da noite quando Melissa foi sacudida no sofá.

- Acorda, Mel! Todo mundo já foi embora... Que você aprontou ontem, menina?

Melissa acordou meio tonta e nem lembrava direito de onde estava. Levantou cambaleando do sofá e foi ajeitar o cabelo no espelho da sala.

- Ai Pati, desculpa... Acho que é o remédio que eu tomei, mas já passou... Vou pra casa...

- Remédio? Você tá bem? Consegue ir pra casa?

- Tá tudo certo, amiga. Relaxa!

Melissa pegou seu carro e foi até sua casa que não ficava muito longe. Ainda assim, o sono parecia não deixar que ela chegasse.

Nem bem virou a esquina e Melissa adormeceu ao volante. A batida foi inevitável.

Direto no poste.

E lá estava Melissa com a cara no voltante. Não dá pra dizer que foi derrubada, porque isso ela já estava faz tempo. Quem passava pelo local, não ajudava. A curiosidade só permitia que motoristas diminuíssem a velocidade para bisbilhotar. Mas ajuda mesmo... Nada! Até que uma viatura chegou.

O policial abriu a porta do carro e verificou se Melissa estava bem. Não havia ferimentos e ela parecia apenas dormir. O rapaz tentou contato para ver se ela recuperava a consciência.

- Oi, a senhora está bem?

Melissa se levantou do volante, quase abriu os olhos, mas virou-se para o lado e continuou dormindo. O policial não acreditava no que estava vendo. Respirou fundo e balbuciou.

- Ô meu Deus, acorda aí, gordinha...

Aquelas palavras tiveram o efeito de um sino de catedral tocando ao lado do carro e Melissa acordou furiosa.

- OI?! GORDINHA?

- Não, não, eu falei fofinha... Tá tudo bem com a senhora?

- FOFINHA?


(Continuando...)


- Vai mesmo piorar? - Continuou Melissa. - O senhor está sendo grosso!

- A senhorita me desculpe. Não foi a intenção. Além do mais, parece que tem problemas maiores pra se preocupar no momento, compreende? - Falou o policial apontando o queixo na direção da árvore que parou o carro.

- Ai ai... - Foi a única coisa que Melissa conseguiu expressar.

- Pois é... Ai ai mesmo. Se machucou? O que, precisamente, aconteceu para que o objeto em movimento abalroasse o ponto fixo?

- Acho que acabei dormindo no volante... Mas tô bem!

- Não bebeu não? A senhorita tá com um semblante um pouco embriago, compreende?

Aquele policial não parecia colaborar com estado emocional de Melissa. Ou era inocente demais para não medir as palavras ou estava testando a acidentada. Mesmo a moça afirmando que estava bem, o policial seguiu os procedimentos e requisitou a presença de uma ambulância. Orientou também que ela acionasse o seguro para rebocar. A árvore não pretendia sair da frente.

- Quero ir embora logo. Minhas mãos estão formigando. Será que bati a cabeça?

- Uma prima da minha mãe bateu a cabeça num acidente, foi embora e só foi morrer mais tarde no boteco.

- O senhor tem algo de bom pra me dizer?

- Eu que faço as perguntas aqui, senhorita. - Falou ele enchendo o peito procurando impor respeito. - Fez uso de alguma substância?

- Substância?

- Drogas ilícitas, jovem! Tenho cara de palhaço?

- Não... Não tomei nada... - Respondeu ela confusa.

- E como me explica esse vidrinho tombado de Topiramato aí, hein?

A pergunta do policial veio em tom revelador como final de capítulo de uma novela. Melissa não sabia o que responder e nem se aquilo poderia significar maiores problemas. Seu coração disparou e sentiu náuseas.


- Eu... Eu não sei! - Mentiu Melissa.

- Bem típico. Conheço bem... Começam tomando uma pílula aqui e outra alí pra perder uns quilinhos, depois vem a sonolência, o formigamento, o problema de memória...

- E como o senhor sabe?

- Eu tomei, oras! - Respondeu o policial tranquilamente.

- Mas o senhor é meio gordinho...

- E agora quem está tendo uma indelicadeza com minha pessoa é a senhorita! - O policia se mostrou ofendido. - Tomei, mas parei pois tava quase tendo um piripaque. Por isso tô meio fora de forma.

- Não! Desculpa... O senhor tá até muito bem.

Naquele momento, Melissa e policial perceberam que o acidente havia servido para mostrá-los que os dois tinham mais em comum do que parecia. Partiu dele sugerir que voltassem a se ver numa situação menos inusitada. Ela concordou. Partiu dela a decisão de não tomar mais aquele remédio. Ele curtiu, afinal gostou dela de um jeito que preferia que continuasse exatamente como era. E ninguém queria correr o risco de que uma sonolência botasse tudo a perder no segundo encontro dos dois.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um fato e uma reflexão: Não fazer nada

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Notícia: A meditação da insensatez
Fonte: Época
Data: 15/11/13
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Eu sempre ouço por aí as pessoas dizendo o quanto é importante ter alguns momentos de ócio no dia, de não fazer nada, não pensar em nada, não se preocupar com nada... De como isso tudo é essencial para a produtividade.

Eu até concordo que isso é importante, mas hoje eu queria refletir sobre um outro lado disso: até que ponto esses momentos de ócio colaboram e passam a se tornar um problema? Não me parece tão difícil que, num piscar de olhos, a gente perca a noção entre o fazer nada e o produzir algo.

Quando se trabalha com criação isso é ainda mais evidente. Muitas vezes, aquele ócio criativo para buscar referências e repensar algumas escolhas acaba virando procrastinação. Começamos a empurrar com a barriga e um prazo próximo do fim passa a se tornar um o único fator de motivação para a conclusão do trabalho.

Antes de qualquer coisa, é preciso estar ciente da razão do ócio e do seu tempo de duração. Em seguida, temos que verificar quais outros fatores de resistência estão impedindo a continuidade. Se estamos apenas relaxando por um tempo, mas as ideias continuam fluindo e o trabalho caminha bem, não há com o que se preocupar! Esse descanso é até recompensador e ajuda a prosseguir.

Por outro lado, se o ócio é uma desculpa para não terminar, seja porque o trabalho é chato ou porque estamos sem vontade, aí é preciso seguir apenas quando a resistência é limada da frente.

Se está chato, o que posso fazer para deixar mais agradável? Uma posição diferente? Um local diferente? Ou quem sabe uma recompensa no final?

Se não há ideias, que tal fazer uma pesquisa sobre o que estamos fazendo?

O resultado não está ficando bom? Aí já é o caso de mostrar para alguém, pois uma segunda opinião pode colaborar e ajudar a seguir por caminhos que ainda não foram pensados.

Soluções para nossos bloqueios existem aos montes, mas acredite: deixar o prazo estourar pode até motivar, mas não garante que o resultado seja o desejado. Aí, dá-lhe frustração e insatisfação gerando novas fontes de bloqueio lá na frente.

Então, veja só, se for pra ficar sem fazer nada que seja com a consciência tranquila! =)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Predestinação



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Notícia: A cada 50 mortes no mundo por raios, uma acontece no Brasil
Fonte: R7
Data: 15/01/14
Nível do conto: 3
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O sonho de Marcus foi, literalmente, claro como um raio. Ele acordou apavorado.


Desde criança, teve razões para não duvidar dos presságios que lhe aconteciam enquanto dormia. Viu sua avó se despedir antes mesmo que o pai dele recebesse a notícia do hospital. Soube que um primo capotaria o carro sem que o garoto tivesse tirado o carro da garagem ainda. Era um dom. Ele sempre se antecipava dos acontecimentos. Mas cresceu com uma covardia estranha de não querer interferir no percurso do destino. Apenas dava pequenos sinais que ninguém se importava. No dia da avó, por exemplo, pediu ao pai que ligasse no hospital para ter a notícia que não seria novidade para o menino. No dia do primo, o aconselhou que tivesse cuidado com as curvas. Porém, suas sutís interferências não causavam impacto. Sofria com isso, mas poderia ser pior se descobrissem que ele era uma aberração. Além disso, se evitasse o pior, assumiria a fatalidade pra si? Ele não queria pagar para ver e foi crescendo às sombras de seu mundo estranho.


Naquela tarde, com o olhar se acostumando à claridade, foi até à janela para ver o céu e percebeu as nuvens carregadas. Não sabia por quanto tempo havia dormido após o almoço, mas foi tão profundo que acordou sentindo como se tivesse dormido por dias.


Estava um pouco confuso se a trovoada que o fez acordar havia sido real. Nos últimos tempos, Marcus começava a confundir a realidade no presente com as possibilidades do futuro que ele profetizava. Era demais para um garoto de vinte anos, que ajoelhava todas as noites pedindo aos deuses que fosse um jovem normal.


Repentinamente, aquele estalo de trovão o fez lembrar do pesadelo…


De um lugar alto, podia assistir aos seus pais e irmã correndo por um campo grande e cercado que os impedia de abandonar o lugar. Tudo estava tomado pela lama causada por um temporal assustador. Só não estava um breu devido às luzes dos raios. Marcus, aflito, gritava, mas ninguém o percebia alí. Ele também não conseguia se aproximar. Apenas observava os corpos agitados de sua família que se chocavam enquanto corriam desgovernados. Chorava. Sua irmã era tão pequena e frágil, a mãe mal tinha forças para escapar das poças de barro devido ao peso de suas pernas que a afundavam e o pai correria sem saber a quem iria tentar proteger. O raio que atingiu o campo aterrorizou o garoto. A luz foi forte e não pôde ver nada, mas sabia que havia atingido alguém. Como acordou em seguida, ficou sem entender o que tudo aquilo representava.


Marcus sacudiu a cabeça tentando livrar-se da tensão e saiu do quarto procurando pela mãe. Um abraço dela resolveria tudo. Na cozinha, encontrou um bilhete.


“Filho, vou passar no mercado e depois busco sua irmã na escolinha. Vamos ver seu pai jogar com os amigos. Se chover, coloca o Thor pra dentro. A mãe te ama!”



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Uma nova trovoada estremeceu Marcus. A chuva começava a cair e ele não conseguia segurar o pavor que sentia ao relacionar o sonho com aquele recado da mãe. Correu para pegar o telefone. Ele precisava fazer alguma coisa. Passou a vida com medo de seu dom, mas estava na hora de encarar. Ligaria para os pais, contaria sobre o presságio e todos poderiam se… “Não! o telefone tá mudo…”


Marcus deixou o aparelho cair no chão e foi em busca de seu celular. Não encontrava. Talvez não pudesse mesmo encontrar um palmo diante do seu nariz devido ao desespero. Só havia um jeito. Ele precisava encontrar a família.


Se pelo menos o pesadelo tivesse lhe revelado o que acontecia, saberia quem estava em real perigo. Não dava tempo para deduzir. Ele saiu descontrolado mandando o destino pra puta que pariu.


O primeiro insight de Marcus foi correr até a escolinha da irmã. Se a mãe ia ao supermercado antes, então talvez ainda não tivesse encontrado a filha. Mas, chegando lá, a diretora informou que, pela falta de luz, acabou dispensando a menina e entregando-a para a mãe que havia passado por alí minutos antes.


O corpo dele estava quente. Corria sentindo o peso da roupa molhada e a força da pancada de chuva que despencava. Procurava se concentrar para ver se lembrava de mais alguma coisa do sonho. Estava com ódio por não conseguir decifrá-lo. Nem percebeu o percurso que precisou seguir até que chegasse no campo em que seu pai costumava jogar bola.


Chegando no portão do campinho, se deparou com o lugar vazio. O jogo não havia acontecido. Marcus, enfurecido, deu mais uma apertada de passos até chegar ao centro do campo. Foi alí que a sua revolta chegou ao ponto máximo de descontrole. Abriu os braços e gritava pedindo aos deuses que o matasse.  Se não podia salvar a família, que o raio o atingisse e acabasse com aquilo. Chorava enfraquecido e vencido. Demorou até perceber que era em vão. Não cabia à ele escolher um destino. Era o destino que lhe dizia como queria que as coisas fossem.


O rapaz voltou para casa cambaleando desnorteado. Ainda chovia e não havia sinal de que o tempo fosse melhorar. Quase próximo ao seu muro, viu o carro de seu pai parando. Estavam todos alí! A mãe, a irmã e o pai… Marcus paralisou as pernas e o coração apertou no peito. Não poderia diferenciar alívio da felicidade. Quase que em frações lentas de segundo, viu um raio rasgando o céu e gritou arranhando a garganta. Após o clarão, do relâmpago, ele fechou os olhos e foi se aproximando por instinto. Já estava no quintal de casa quando começou a recobrar os sentidos e entender o que havia acontecido. Olhou ao redor, viu a família em pé e encharcada. Todos mantinham uma expressão de pavor congelada no rosto . Ele abaixou a cabeça e viu o seu cão caído, entendendo a reação dos demais.


O pai se aproximou do animal para examiná-lo e gritou para que a mulher voltasse ao carro e pegasse o celular para pedir ajuda.
Marcus conduziu a irmã para dentro de casa pensando nas palavras que pudessem dar-lhe algum conforto. Ainda não sabia se Thor conseguiria escapar da fatalidade. Enquanto secava a menina, se deu conta de que havia saído tão alucinado de casa que esqueceu de colocar o cachorro pra dentro conforme a mãe orientou no bilhete.

Naquele momento, ele não estava mais tão certo se continuaria a dar todo o crédito dos fatos à tirania do destino. Mais uma vez, preferiu reprimir seu dom.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sim, mãe


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Notícia: Jovem que morreu para salvar escola será condecorado no Paquistão
Fonte: G1
Data: 13/01/14
Nível do conto: 3
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Eram apenas dois meses de serviços prestados pelo programa Médicos sem Fronteira em Khyber Pajtunjua, mas Eliane já tinha visto muita coisa. Tanto a situação do local como a forma que refugiados afegãos chegavam por ali eram de impressionar qualquer pessoa. Ainda assim, ela se mantinha firme.

Eliane é médica há mais de dez anos e sempre trabalhou em hospitais de ponta, com todo o tipo de recurso necessário para exercer sua profissão. Agora, ela encarava um cenário precário, sem recursos e conforto, mas sempre dedicada ao máximo.

Nenhum dos casos que presenciava deixada Eliane desanimada. Muito menos as desconfortáveis viagens para transferir pacientes até Peshawar em um calor insuportável. Ela estava firme e focada em sua missão e pretendia ficar no Paquistão por um bom tempo.

Os planos só mudaram quando um acontecimento abalou suas estruturas. Não se comentava outra coisa naquele dia a não ser a morte de um jovem de 15 anos que impediu um homem bomba de causar uma catástrofe explodir uma escola em Ibrahimzai. O garoto tornou-se um herói.

Ao ver a foto do jovem nos jornais, Eliane tremeu. Ele lembrava muito seu filho Jorge. Até a idade era a mesma. A diferença era que Jorge vivia no conforto de um bairro nobre em Búzios.

Foram dois meses de muito esforço para não pensar no garoto, no Brasil e no vazio causado por um divórcio conturbado. Eliane sentia mágoa do filho até então. Agora se culpava: como poderia nutrir um sentimento tão nocivo por alguém a quem deu a vida? Egoísmo? Incompreensão? Talvez tudo isso.

Ela sempre esteve muito ocupada e longe de casa, mas seu ex-marido também não era o pai mais presente que um garoto poderia ter. Mesmo assim, Jorge preferiu ficar com o pai após o divórcio. Sua decisão foi muito rápida, sem qualquer sombra de dúvidas. Essa certeza toda foi o que mais magoou Eliane. Como o garoto tinha sido capaz de nem considerar viver com ela?

Consumida por essa tristeza, a única saída encontrada foi deixar o país e se dedicar exclusivamente ao programa internacional. A despedida de Jorge foi seca e formal, mas Eliane havia achado melhor assim, pois não corria o risco de se arrepender da partida. A dureza só se dissolveu dois meses depois, quando a morte do jovem tocou o coração da médica. Mas ainda era tempo de reverter a situação? Eliane acreditava que sim.

- Preciso ver meu filho. Preciso ir embora daqui!


Imediatamente, Eliane comunicou ao seu superior que iria deixar o Paquistão e retornar ao seu país por ter assuntos pendentes por lá. Sem entender a razão repentina de sua desistência, o doutor Richter ainda tentou convencê-la a ficar. Ela desabafou e explicou as razões da sua partida para o doutor Richter, que ficou em silêncio por alguns segundos e disse:

- É uma pena ver você partir, doutora. Mas eu não vou te impedir. Essa missão não é pra você. Você não está aqui por desejo, mas para fugir da sua realidade. Ainda assim fico muito feliz de ter contado com a sua ajuda. E fico feliz também por ver que ao chegar aqui você se reencontrou.

- Com certeza doutor, muito obrigada!

Ao chegar no Brasil, contemplar o apartamento vazio era mais dolorido do que a visão de sua rotina no Paquistão. Imaginava poderia encontrar Jorge em seu quarto navegando na internet ou lendo algum livro, mas o cômodo já não tinha nenhum móvel.

Eliane cogitou a possibilidade de pegar o carro e ir ao encontro de Jorge, mas a viagem e a diferença e fuso horário fizeram uma bagunça em seu organismo. Por ora, ela achou melhor tomar um calmante e dormir o máximo que pudesse.

No outro dia, acordou disposta e mais calma. Tomou seu banho e um café da manhã bem reforçado. Foi até a casa do ex-marido, que ficava bem perto da praia. Ao chegar lá, seu ex-companheiro estava na varanda na companhia de uma mulher que aparentava ser bem mais jovem. Ele fechou a cara e se levantou. Eliane o interrompeu antes que a situação piorasse.

- Calma Jair, eu vim em paz, não se preocupe. Não quero te atrapalhar, só precisava falar com o Jorge. Me desculpe chegar sem avisar mas é muito importante.

- O Jorge tá em Geribá.

- Eu vou até lá. Obrigada... e me desculpa mais uma vez.

- Mas tá estranha, hein...

Eliane foi se afastando e percebeu que Jair a observava bastante desconfiado. A sua acompanhante se aproximou e o abraçou por trás. Eles cochichavam e pareciam esperar que Eliane fosse logo embora.

A praia não estava tão cheia. De longe foi possível ver Jorge sentado sozinho contemplando o mar. Eliane chorou ao ver o filho, em parte pela saudade que sentia, mas também pelo tempo que desperdiçou cultivando um sentimento ruim em relação a ele. Naquele momento ela não sabia se deveria correr até ele ou esperar que a visse enquanto se aproximava. Apenas parou e olhou o filho por alguns minutos.

Quando viu a mãe, Jorge se levantou e correu até ela. Os dois se abraçaram por muito tempo. O garoto chorou e encarou a mãe.

- Filho, eu senti tanto sua falta...

- A vida inteira eu senti tua falta, mãe. Esses dois meses perto dos quinze anos não foram nada.

- Eu sei que eu não estive sempre presente, Jorge, mas eu fui uma mãe tão carinhosa, poxa!

- Não é a mesma coisa.

- Olha, filho, nunca é tarde pra tentar melhorar. Eu precisei passar dois meses num lugar massacrado pra encarar a minha vida de frente. E a minha vida tá bem mais massacrada do que o Paquistão.

Jorge começou a rir do que a mãe acabara de dizer. Eliane, meio sem jeito, continuou.

- Eu praticamente perdi a minha família, mas eu quero recomeçar tudo. Voltei de lá me sentindo uma recém-formada. Com quase 40, mas me sentindo no início de tudo.

Jorge riu novamente.

- Caraca, mãe! Hoje tá demais, para com isso!

- Eu tô falando sério, filho!

- Eu sei... Independente de tudo, tu é minha mãe e sempre vai ser. Só achei melhor vir morar com meu pai pra não ficar tanto tempo sozinho. Mas se tá difícil pra você, eu volto pra lá contigo.

Eliane sorri para o filho e começa a acariciar seus cabelos.

- Não queria ficar sozinho mas tá aqui em Geribá, sem ninguém... Ô meu filho, volta sim que vai me fazer a mãe mais feliz do mundo! E eu prometo que vou ser companheirona, não vou te deixar na mão nunca mais.

- Só me dá um tempo, mãe. E eu volto pra casa, deixa eu ficar um pouco com ele e logo eu volto, certo?

- Combinado filho, combinado.

Os dois se abraçaram.

- Te amo, mãe.

- Também te amo filho, muito!

Chegando em seu apartamento, Eliane olhou para o vazio do quarto de Jorge, mas dessa vez não sentiu tristeza. Agora, a perspectiva era outra. O quarto não tinha móveis, mas iria ter novamente. Em breve, o filho estaria ali com ela.

A sensação de esperar pela volta de Jorge era como uma gravidez. Era assim que Eliane se sentia, grávida do mesmo filho. Mas dessa vez ela poderia ser mais presente. Se sentir novamente mãe.

- Agora sim eu vou ser mãe! Sim, mãe!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Antes do tempo


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Notícia: Acúmulo de água na pista bloqueia trecho da BR-116 em Tapes, RS
Fonte: G1
Data: 13/01/14
Nível do conto: 2
Outras opções de notícia:  
Turistas brasileiros pedem maconha em farmácias do Uruguai
Homem ficou preso em teleférico e gravou vídeo
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10.01.2014


Alice e eu acabamos de chegar ao Camping dos Pinheirais. Acredito que já tenha passado das dez da noite, mas não tenho certeza… Eu insisti que deveríamos deixar os nossos celulares no hotel Pontal. Queríamos um pouco de paz para comemorarmos 1 ano de casados. Há muito tempo eu
estava querendo fugir da rotina em Porto Alegre. Está bem escuro aqui, mas posso ouvir o mar tranquilo e o vento mexendo com os galhos das árvores. Alice tá um pouco irritada de ter que dormir na barraca. Besteira! Cuidei pra que ela não tivesse nenhum desconforto. Ela tá grávida e nosso bebê chega mês que vem. Isso a tem deixado um pouco mais sensível e menos aventureira do que costumava ser. Mas a saúde está ótima. Não há riscos! De qualquer maneira, acho melhor não tocar violão pra não parecer que não ligo.


11.01.2014


Aproveitei que Alice acordou com a cara boa pra propor uma caminhada. Seguimos pela areia pesada e não tinha como sermos indiferentes à natureza ao redor. Lembrei do homem que conhecemos num posto de gasolina ontem e que nos respondeu porque a cidade se chamava Tapes. Ele disse que a palavra indígena significava “trilha para o mar”. Alice e eu nos demos conta de que o nome da cidade era mais que justo. Foi bonito ver quando ela se virou pro mar e, passando a mão naquela barriga linda, disse: “Julia, você pode sentir isso? Seu pai e eu estamos no paraíso!”
Enquanto descanso à sombra de um pinheiro, controlo a ansiedade de dar uma volta de barco pelo Lago dos Patos mais tarde. Alice disse que tá meio indisposta, então vou sozinho mesmo.
Como choveu muito por esses dias, não vai rolar o passeio lá pela região das barragens. Minha mulher tá achando até bom...



12.01.2014


Viagem interrompida. Estou assustado. Minha esposa se tancou no banheiro do camping e não está se sentindo bem. Pelas contrações, acho que a Julia quer vir antes do tempo. Não tem médicos por aqui e já são quase três horas da manhã. Resolvi escrever um pouco pra ver se me acalmava, mas não tá adiantando. Temos que voltar pra Porto Alegre agora.



13.01.2014


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14.01.2014


A culpa é minha. Eu insiti pra gente conseguir viajar e desencanar um pouco. A Alice precisava de um pouco de paz pra que a nossa filhinha pudesse nascer mês que vem sem maiores problemas. Ainda estou em choque. Ontem amanheceu cinza e barulhento na rodovia. Não estava chovendo… Eu não entendo de onde poderia vir toda aquela água que já atingia o assoalho do meu carro. Vimos um carro sendo arrastado. Minhas mãos grudaram no volante e eu lutava contra minhas fraquezas para poder acalmar minha esposa que se contorcia no banco de trás. A bolsa estourou assim que deixamos o camping em Tapes. A Júlia iria nascer. Percebi que a tendência era de que a água na via diminuisse. Ainda que não acontecesse, eu precisava fazer alguma coisa. Saí do carro e agarrei o colete de um policial rodoviário que controlava o engarrafamento das pistas. “Minha mulher entrou em trabalho de parto. Pelo amor de Deus, me ajuda!”.


Acho que não fiz uma abordagem sutil. Tanto que o carro mais próximo pôde me ouvir. E foi deste carro que surgiu um médico, acompanhado de sua família, disposto a me dar uma força.


De volta ao carro, Alice segurou forte minha mão e gritou ao médico que não queria que o nosso bebê nascesse ali. O policial rodoviário se aproximou correndo e, preocupado, sugeriu que eu retornasse para Tapes. O trânsito estava melhor naquele sentido e havia um hospital no centro.


Minha esposa aguentou o quanto deu…Respirava conforme a orientação do médico que ia fazendo o que dava durante o percurso. Por fim... Júlia nasceu no hospital!


Ao saber da notícia e me certificar que as duas estavam bem, minhas pernas ficaram moles e fui amparado pelo médico que conheci na BR. Não sei o seu nome, nem precisava… Apenas o abracei chorando e sem acreditar que havíamos passado por aquilo. Não me perdoaria se alguma coisa ruim acontecesse...

Alice e Júlia ainda estão no hospital e minha filha vai precisar ficar um tempo na encubadora. Acho que tá tudo sob controle… O jeito vai ser permancer aqui no camping. É um bom lugar para renovar minhas energias, esperar pela minha família e voltarmos pra casa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mahmoud e Shirin

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Notícia: Líder iraniano proíbe jovens do país de conversarem na internet
Fonte: R7
Data: 08/01/14
Nível do conto: 2
Outras opções de notícia: Os 10 livros mais vendidos no Brasil em 2013 e Cientistas descobrem esqueletos de homens e mulheres enterrados em clima romântico
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O pequeno Mahmoud foi arrebatado logo cedo pelo amor. Já aos 9 anos se apaixonou pela sua vizinha Shirin Stelle.

A família de Mahmoud não simpatizava tanto com a amizade das duas crianças, já que as origens de Shirin não eram muito convencionais. Sua mãe, Rebecca, era uma fotógrafa inglesa que não seguia totalmente os costumes locais, muito embora fizesse questão que a filha, em respeito ao pai, fosse criada de acordo com a cultura iraniana.

Ainda assim, Mahmoud se imaginava casando com Shirin e constituindo uma família. Mas o destino parecia não querer que isso acontecesse, já que aos 15 anos, o pai de Shirin morre em um acidente e sua mãe não vê outra alternativa a não ser regressar para Londers, levando a filha.

A despedida foi complicada, afinal os dois sequer conseguir trocar um primeiro beijo. Mahmoud sentiu uma dor enorme quando viu que a casa de Shirin trancada. Mas prometeu a si mesmo que um dia a reencontraria e os dois finalmente seriam felizes.

***

Três anos se passaram desde essa separação forçada, até que o reencontro finalmente ocorreu.

A demora se deu pois a família de Mahmoud sempre seguiu à risca os preceitos do líder supremo do país. Por conta disso, em sua casa eles não eram adeptos de uma prática muito comum por lá: acessar sites de internet utilizando VPN como uma forma de burlar os bloqueios impostos. Por conta disso, Mahmoud nunca procurou Shirin em redes sociais, o caminho mais fácil de um reencontro.

Finalmente, depois de muitos anos de bloqueio, os jornais noticiaram que o Facebook estava desbloqueado no Irã. Mahmoud foi tomado pela esperança e imediatamente criou um perfil. Em menos de cinco minutos já havia localizado sua amada. Não era uma tarefa difícil, já que um nome tão incomum que misturava duas culturas tornava Shirin Stelle uma pessoa única.

Mahmoud enviou uma mensagem para a amada e o melhor de tudo é que ela respondeu pouco tempo depois. Ele custava a crer que finalmenta havia reencontrado Shirin.

Os dois buscaram colocar o assunto em dia. De um lado Shirin contando de seus dias na faculdade e de outro Mahmoud sobre o primeiro emprego tão promissor.

Logo as notícias que chegaram davam conta de que o desbloqueio do Facebook seria temporário e em breve o acesso seria limitado novamente. Mahmoud se desesperou, mas prontamente Shirin pediu seu endereço e disse que manteria contato por cartas.

***

Foram semanas até que a primeira carta de Shirin chegasse. Mahmoud tocava o papel emocionado e relia diversas vezes para contemplar a letra da amada e verificar se os anos estudando inglês por livros tinham sido bons o bastante.

Mahmoud não respondeu a carta. A ansiedade o impedia. Pela primeira vez, resolveu quebrar as regras e usar o VPN para acessar o Facebook e enviar mensagens para a amada todo os dias.

Apesar de todo o amor que sentia, ele jamais tocava nesse assunto com Shirin. As conversas quase sempre eram sobre amenidades e, principalmente sobre o quanto a vida na Europa era diferente.

Na verdade, Mahmoud sabia que teria um grande problema ao tentar essa relação, pois sua família certamente seria contra.

A situação estava deixando Mahmoud aflito demais. Logo, ele decidiu que assim que recebesse uma espécie de "sinal", deixaria tudo de lado e iria para Londres buscar Shirin.

Um dia, ao chegar em casa, Mahmoud foi até o computador enviar notícias para sua amada. Porém, ao acessar o Rajanews, leu a notícia em que o líder supremo do Irã afirmava que a troca de mensagens online entre jovens era imoral e não permitida.

Sua consciência doeu e Mahmoud se sentiu culpado demais. Em seguida, ele entendeu que aquele sentimento era o tal sinal para finalmente ir embora.

***

Mahmoud arrumou suas malas e iria esperar a madrugada para sair de casa escondido dos pais. Já tinha um plano: iria adquiriar as passagens aéreas mais baratas, de um vôo de doze horas de duração que parava em Gydu Heydar, no Azerbaijão, para depois finalmente chegar a Londres.

Deitado na cama, esperava o momento da partida chegar para finalmente sair. As lembranças de Shirin e a possibilidade de passar o resto da vida com ela ocupavam sua cabeça.

A hora chegou e Mahmoud saiu em busca da amada. Antes de fechar a porta, apenas pediu perdão aos pais pela fuga.

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Chegou a Londres completamente assustado. Sua origem e aspecto físico geravam desconfiança onde passava. O que salvava era seu inglês, que estava muito bom.

Mahmoud trazia consigo o envelope com o endereço de Shirin. Enquanto o táxi fazia sua rota, se espantava a cada esquina cruzada.

Seu coração disparou ao avistar o pequeno sobrado em que Shirin vivia. Admirou a entrada por alguns minutos até tocar a campainha.

A mãe de Shirin atendeu a porta, muito surpresa em vê-lo. Ela não tinha mudado nada desde a infância. Mahmoud explicou que estava de férias pela Europa e passou para fazer uma visita. Rebecca disse que a filha não estava em casa, havia saído para almoçar com alguns amigos próximo dali. Ela convidou o jovem para entrar, mas Mahmoud preferiu encontrá-la no restaurante.

Aflito, ele andava apressado pelas ruas até avistar o tal restaurante, com uma grande área externa. Foi fácil reconhecer a bela Shirin entre as mesas, mas a surpresa não foi muito agradável. Ela estava na companhia de um belo rapaz, conversando, sorrindo e mexendo nos cabelos, que estavam à mostra, sem mesmo um véu para cobrir.

Aquela cena encheu Mahmoud de ódio. Como pode sua amada estar tão indecente em público? E na companhia de outro homem?

Enfurecido, se aproximou de Shirin e gritou com ela. Ele percebeu que havia uma pedra no chão, pegou e atirou, atingindo o ombro da jovem.

- O que você está fazendo aqui, Mahmoud? Por que você fez isso?

- É isso que as mulheres sem respeito merecem!

- Que absurdo! Você não tem o direito, Mahmoud!

- Como seu futuro marido, eu tenho direito!

- E quem disse que eu vou me casar com você?

- Sua mundana!

Mahmoud foi para cima de Shirin, mas o rapaz que a acompanhava se levantou e o segurou pelo pescoço.

- Talvez seja assim que vocês tratam as mulheres no seu país, mas no meu esse tipo de homem covarde merece coisa muito pior!

Ele jogou Mahmoud no chão e o espancou até que desmaiasse.

***

Mahmoud acordou assustado e chorou bastante. Ele se sentia envergonhado do que havia feito e dilacerado por saber que jamais veria sua amada de novo. Porém, logo notou que não sentia a dor dos ferimentos.

Aos poucos percebeu que apenas tinha sonhado e que já havia amanhecido.

Bem depressa se levantou e pediu a benção aos pais. Voltou para o quarto e, arrependido, chorou. Pouco depois, ele riu dos seus pensamentos e de como tudo aquilo era absurdo. Afinal, ele sequer teria entrado em Londres sem um visto ou encontrado tão fácil a casa de Shirin. Ele também imaginava que em outro continente seria difícil que Shirin ainda seguisse de forma rigorosa os costumes de seu povo.

***

Alguns dias depois, uma nova carta de Shirin chegou. O envelope era mais grosso e pesado do que o primeiro.

Para a surpresa de Mahmoud, dessa vez a carta não veio em inglês. Escrevendo em farsi, Shirin dizia o quanto estava feliz por reencontrá-lo, afinal isso fazia com que ela estivesse em contato com sua cultura e também com o amor novamente.

O amor. Mahmoud não acreditava no que havia lido. Mas estava lá. Ela tomara a iniciativa que ele até então não conseguia.

Sim, Shirin o amava!

Junto com a carta, Shirin enviou uma linda foto. Ela usava o véu, mas mantinha o rosto de fora, com um sorriso encantador e seus olhos verdes cintilando. Ainda que não estivesse totalmente de acordo com os costumes, era um meio termo interessante para Mahmoud.

O envelope também trazia uma chave. Sobre ela, Shirin dizia no final da carta:

Gostaria que você fosse até minha antiga casa e abrisse. 
Está tudo lá, do jeito que deixamos ao partir. 
Os móveis, os objetos, meus brinquedos. Serão lembranças boas de reviver.
Aproveite o momento e embale o que puder. 
Traga com você.
Tenho certeza que juntos construiremos uma bela família Londres, Mahmoud. 
Mas com o jeito de nossa terra natal.
Posso contar contigo?
Com amor,
Shirin


Mahmoud sorriu e seu coração se encheu de alegria. Ele guardou com carinho a carta e foi para a antiga casa de Shirin com a chave nas mãos. No caminho, seu pai perguntou onde ele estava indo.

- Começar a minha família, pai.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Visita enfurecida

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Notícia: Vândalos invadem Cemitério do Araçá e destroem estátuas e lápides

Fonte: G1 
Data: 06/01/14
Nível do conto: 1 (Ver tabela da coluna à direita)
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Joana ia a passos largos, mas não perdia a leveza que adquiriu em sua juventude. Carregava seus 68 anos como se fosse uma atriz bem jovem que fora caracterizada para viver o papel de senhora. “A culpa é de Cacilda! Aprendi com ela....”,  dizia com um sorriso arrebatador que lhe espremiam os olhos. E quem a indagava sobre a tal Cacilda, ela esclarecia que era “aquela que não viu Godot chegar”.


Atravessando o portão principal do cemitério Araçá, Joana se embrenhava por entre os túmulos com passos ensaiados de um antigo ritual. Seguia com algumas margaridas embrulhadas numa folha de papel e ia deixando seu “bom dia” ou “boa tarde” aos seus entes que partiram; começava pelo tio que se foi lá pelas épocas de 80 e terminava com uma reverência ao mais recente - seu marido. A ordem era sempre a mesma, e ia da dor que virou saudade até a saudade mais ressente que ainda insistia em doer um pouquinho. O bom é que Joana demonstrava entender e respeitar o fato de que as coisas são feitas para serem desse jeito.


De longe, os olhares admirados e enrugados do senhor Freitas, o coveiro, observavam aquela romaria solitária e cheia de ternura. Eram tantos visitantes por ali - os saudosos e os forçados - mas nenhum era como aquela mulher cheia de vida. Naquele momento, Freitas se lembrou de um incidente e sabia que o fato poderia afetar Joana. Ela, que acabava de jogar um beijo em direção ao jazigo do esposo, partia para seu último ato daquele ritual; já Freitas correu, pois pretendia poupá-la de uma certa indisposição.


- Joaninha, meu anjo! Bonita como sempre. - Disse Freitas chegando num vulto e impedindo que Joana sequer terminasse o passo seguinte.

- Senhor Freitas, convive tanto com os fantasmas que quase está me parecendo um.

- Desculpe-me se assustei a senhora. Acho que era saudade!

- Não poderemos papear agora. Tenho que levar as margaridas de Cacilda. Hoje estou bem atrasada!

- Não! - gritou Freitas quase ressuscitando os mortos.

- Não? - perguntou Joana estranhando aquela aflição do coveiro.

- É… Não! Digo… Antes, a senhora poderia me contar mais um pouco de suas histórias! As peças que a senhora assistia. Eram bonitas, não?

- Pensei que já havia lhe contado tudo, senhor coveiro…

- Mas e aquela última peça da senhorita Becker? Eu quero saber o que aconteceu!

- Ah sim… - disse Joana abaixando os olhos que deixavam escapar um pouco do brilho. - Bem... Ela, a Cacilda, estava linda no palco… Não linda por conta de um vestido, pois eram roupas de mendigo! Mas estava com um olhar romântico e dizia que esperava por um tal de Godot. Mas ela não pôde esperar! Saiu carregada do teatro, sob os olhares temerosos de todos. Ela morreu sem saber quem era Godot…Não é triste, senhor Freitas?

- Muito… Muito…

- Sim… Muito! Agora o senhor me dê licença que vou levar suas margaridas. Eu a prometi em 69. Quase que falho com a coitadinha.

- Não! - gritou Freitas novamente e segurando os braços de Joana que levou outro susto. - A senhora não pode!

- Por que não posso? Oras… Acho que o senhor está começando a esclerosar. Me solte que irei ver a senhorita Becker!

- Aconteceu algo, Joaninha…

- O que foi? Diz!


Os olhos de Joana se arregalaram pesados em direção ao Freitas que tremia as mãos enquanto buscava palavras. Ele supunha que tinha algo nada bom para dizer à ela, então era preciso inventar algo menos terrível do que aquilo que sabia. Mas era tão difícil mentir para Joana. Aquela alma ingênua não era merecedora de mentiras. A não ser que…


- Godot voltou! - soltou Freitas, percebendo que precisava de um pouco de saliva para molhar a garganta.

- Voltou? - perguntou Joana estarrecida e pálida.

- Sim, nesta noite. Veio aqui procurando por Cacilda e não sossegou até que eu o levasse até ela. E quando ele viu aquele vasinho bonitinho que a senhora deixou…

- Oh não… O que ele fez?

- Quebrou! Jogou no chão num ciume danado. Não acreditou quando eu disse que havia sido a senhora.


Joana não conseguia se acalmar. Estava tão atordoada com a notícia do coveiro e se sentia culpada. Passou tanto tempo pedindo que Cacilda  Becker não desistisse de esperar por Godot que, quando ele veio… "Oras! Estraguei tudo…" pensava pesarosa.


Mas Joana era um senhora astuta. Não cairia facilmente naquela história fajuta do Freitas. Olhou para ele como quem olha um réu, e se esquivou rapidamente em busca do túmulo da atriz que tanto admirava. Chegando lá, encontrou os cacos de um vaso antigo de flores que havia deixado alí. Olhou ao seu redor e percebeu um estrago tremendo por toda parte. Aquilo a enfureceu.


- Esse Godot tava bem revoltadinho, hein. Veja só o estrago!

Dando de ombros, Joana torceu o nariz e saiu sem se preocupar com as margaridas que haviam caído no chão. Freitas notou que ela nem fez o mesmo percurso de sempre. Ele sentiu medo de que aquilo poderia significar um adeus, mas não tinha muito o que fazer… Ele sabia que se contasse para ela que tudo aquilo foi obra de vandalismo na madrugada anterior, dificilmente Joana iria acreditar.